Roendo #1: A Biografia Íntima de Leopoldina – Marsilio Cassotti

Ficha Técnica:
Leopoldina

Título: A Biografia Íntima de Leopoldina: a imperatriz que conseguiu a independência do Brasil

Autor: Marsilio Cassotti

Tradução: Sandra Martha Dolinsky

Edição: #1

Ano: 2015

Páginas: 304

Editora: Planeta

Nota: 4/5

Em um belo sábado (especificamente dia 22 de Agosto de 2015), enquanto eu andava pela Livraria Cultura do Salvador Shopping e fuçava as prateleiras, super impaciente e ansiosa, pois aguardava meu namorado e nossa turma do RPG chegarem para que pudéssemos iniciar a nossa tradicional jogatina embaixo da escadaria (quem nunca sentou lá, não sabe o quê é emoção quando as almofadas caem em queda livre na sua cabeça! 😀 )…
Sim, eu estava impaciente, e quando fico assim, acabo comprando coisas por impulso.
O desse sábado de RPG foi o livro “A Biografia Íntima de Leopoldina”, pra quem não conhece, Leopoldina de Habsburgo, foi a primeira Imperatriz do Brasil, personagem histórica pela qual sou imensamente apaixonada.

Adquiri o exemplar por R$ 39,90. Salgado. Mas eis que é a Livraria Cultura, então, já era esperado, e como re-saliento, foi uma compra por impulso. Encontra-se o mesmo livro até mesmo por R$ 23,90, se nos dermos ao trabalho de procurar um pouco em livrarias online… mas como o frete para Salvador é um absurdo, acredito que não saí perdendo tanto.

a biografia íntima de Leopoldina

Comecei a ler empolgada, de início, realmente encanta, pois começa com o que parece ser uma crônica sobre a morte de Maria Antonieta, tia-avó de Leopoldina, sendo levada de carroça para a guilhotina.

Mas a literatura envolvente não dura muito.

Já mais para o meio do livro, sinto que estou diante de um trabalho acadêmico. O quê para uma estudante de direito é muito desconcertante, pois, é o que vejo dia após dia na faculdade. A beleza do romance fica nas primeiras páginas, infelizmente.

No entanto, isso não quer dizer que a obra não é interessante.

Como educar um marido - capítulo do livro biografia íntima de Leopoldina

Através do trabalho de Cassotti, descobri uma Leopoldina diferente da que sempre fui apaixonada, e me apaixonei mais. Ele retrata, de fato, “a parte íntima” da primeira Imperatriz. Seus sentimentos, o amor incondicional por sua irmã Maria Luísa (por ela simplesmente chamada de Luísa), a relação conturbada com sua outra irmã Maria Clementina, princesa de Salerno por casamento, a transformação de uma menina mimada na infância, disciplinada por dua madrasta para conter seus ataques de fúria e graças a isso, suportar com “paciência” a infidelidade do marido. O tão belo quanto ordinário Dom Pedro I (vocês perceberão que não tenho o mínimo de estima pelo primeiro imperador do Brasil, não por ele ser infiel, mas por ter caráter duvidoso, simplesmente, não consigo ser “paciente” com pessoas de caráter duvidoso 😀 ).

“É preciso ter paciência, os homens são, em todos os continentes, cópias das borboletas” (p.194)

O mais interessante do livro, é também a construção e visão dos personagens secundários da vida da Imperatriz. Isso porquê, há quase uma biografia de Napoleão Bonaparte em suas páginas, isso se justifica, pois, o “diabo” como dissera a avó materna de Leopoldina, Maria Carolina de Nápoles, acabou entrando para a família dos Habsburgos. A Monarquia mais antiga da Europa teve de suportar o casamento de Maria Luísa, a irmã mais amada por Leopoldina e a primogênita, filha preferida do Imperador da Áustria, com alguém que não detinha títulos de nascimento. Portanto, Leopoldina, passou a ser cunhada de Napoleão.

Napoleão é retratado na biografia íntima de Leopoldina

O livro termina do mesmo modo que começa: uma alusão a morte de Maria Antonieta, comparando-a com a de Leopoldina. Os três últimos capítulos foram os mais interessantes, apesar de corridos.

Talvez essa impressão de agilidade na ruína da relação de Leopoldina e Pedro devido a Marquesa de Santos, seja somente impressão. Pois, os capítulos não pecam nem pela estética, nem pelo conteúdo, nada fica mal explicado (apesar de eu ter ficado confusa com as datas referentes a 1826, pois o autor se refere “desde o final do verão de 1826” como data para o começo da última gestação da Imperatriz, no entanto, se seguirmos a lógica do hemisfério sul, o final do verão de 1826 seria em fevereiro, e portanto, a arquiduquesa da Áustria não poderia estar apenas há 3 meses grávida… sim, isso me causou confusão. Mas percebi, depois que meu tico e meu teco entraram em um acordo: o autor escreve com o pensamento seguindo a lógica das estações no hemisfério norte. Ou seja, ele não está errado, só é preciso um pouco de atenção). Talvez, a relação deles, como tantas outras, teve sua explosão devastadora, como todas aquelas que parecem calmas e terminam depois de tudo que incomodava ser finalmente dito.

Maria Antonieta na biografia íntima de Leopoldina, imperatriz do Brasil

Eu me senti profundamente irritada com as falácias de Dom Pedro I nos últimos capítulos.

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No meu fundamental 1, os livros de história caracterizavam-no como um bom governante, “libertador do Brasil”… não é de hoje que leio sobre a Monarquia brasileira e sei que isso é uma grande mentira que contam para as criancinhas, que como eu, já admiraram o lindo príncipe português, soldado, guerreiro, heroi. E pouco, ou nada sabem sobre a mulher que, verdadeiramente, fez a independência da nação, ao lado de José Bonifácio (mais o Andrada do que ela na realidade, mas não há como não admitir que essa austríaca foi uma das maiores articuladoras políticas para que hoje nos chamemos de brasileiros). O livro restrata a instabilidade do reino recém proclamado. O descrédito que o povo brasileiro passou a dar ao Imperador sob o pretexto de que ele era marionete dos Andradas, e como isso nele gerou cólera, a ponto de exilá-los na Europa. E como seus rompantes emocionais e a influencia de Domitila fez com que a corte pensasse em colocar a coroa na cabeça da pequena Maria da Glória, ou mesmo da própria Imperatriz. De como, pouco a pouco, o Imperador afastou os servidores de Leopoldina, deixando-a sozinha em meio a damas portuguesas invejosas, influenciaram negativamente na vida da arquiduquesa, como no caso de Maria Graham preceptora de suas quatro filhas.

“Segundo outro amigo dos Andrada, um mês depois da vinda ao mundo da futura duquesa de Goiás ‘os brasileiros ofereceram a Leopoldina a coroa […] alegando os interesses do país, os defeitos do imperador, que ela mesma tinha que sofrer’. Essa mesma fonte conta que a imperatriz responder: ‘Sou cristã, dedico-me inteiramente ao meu marido, aos meus filhos, e, antes de consentir com tal ato, eu me retirarei para a Áustria” (p.203)

No livro Dom Pedro I mostra-se extremamente instável, com rompantes de fúria, tal qual Leopoldina, no entanto, ele não teve Maria Ludovica de Habsburgo-Este para discipliná-lo. Como príncipe da Beira, e depois Imperador do Brasil, tinha todas as suas vontades atendidas, como Leopoldina escreveria a condessa Lazansky, sobre as preocupações referentes a sua filha Maria da Glória, recém aclamada rainha de Portugal:

“Infelizmente, temo muito por ela, pois na história dos regentes acha-se tudo bom, seja bom ou ruim” (p.235)

Leopoldina, morre, sozinha, no Rio, de uma febre que lhe causou um aborto. Deixando o pequeno Dom Pedro de Alcântara, futuro Imperador do Brasil, com apenas 1 ano de idade.

Foram, nove anos no Brasil, sete gestações, cinco filhos, e um amor não correspondido.

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Enquanto isso, Dom Pedro I foi para a guerra da Cisplatina, na tentativa falha de recuperar na guerra o seu prestígio para com o povo, perdido no destrato com sua esposa…

“Nós, pobres princesas, somos como dados cuja sorte se joga e cujo destino depende do resultado. Dirás que sou uma verdadeira filósofa, mas o fogo da juventude se apaga facilmente quando as pessoas se tornam prudentes por experiência própria” (Leopoldina à Luísa p.241)

Biografia da Imperatriz do Brasil, Maria Leopoldina

P.S.: Sobre a parte ilustrada do livro: Linda! Porém as legendas me decepcionaram, são apenas quotes do livro, isso me causou um certo tédio; esperava informação nova para dar um ar de vivacidade as imagens.

Maria Teresa de Habsbugo, a Grande. Em A biografia íntima de Leopoldina

O livro também disponibiliza, ao seu final, a árvore genealógica de Leopoldina, bibliografia utilizada para a construção do trabalho, uma lista de personagens ordenada pelo momento em que aparecem na narrativa, e finalmente as notas, que durante toda a obra se fazem presentes (não que elas sejam muito explicativas, a grande maioria é para destacar e dar crédito ao autor citado).

Apenas lembrando: o livro é baseado nas cartas que a Imperatriz enviou para parentes e amigos durante sua vida.

P.S.1: Ainda sobre o preço salgado que paguei: quase infartei quando eu vi essa oferta! (31/Ago/2015)

biografia leopoldina

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